O câncer gástrico é, na maioria dos casos, um adenocarcinoma que nasce na mucosa do estômago e cresce em direção às camadas mais profundas da parede. O tratamento com intenção curativa é cirúrgico: gastrectomia subtotal ou total, dependendo de onde o tumor está, acompanhada de linfadenectomia D2, a retirada regrada das cadeias de linfonodos ao redor do estômago e dos vasos que o irrigam. Em tumores que já invadem a camada muscular ou comprometem linfonodos, o protocolo usual acrescenta quimioterapia antes e depois da operação. O diagnóstico é feito por endoscopia digestiva alta com biópsia, e o estadiamento por tomografia; parte dos casos exige ecoendoscopia ou laparoscopia de estadiamento. O Dr. Gustavo Henklain Duarte, CRM 168708-SP, RQE 120070, avalia casos de câncer de estômago em consultório na Av. Paulista, em São Paulo.
Como um câncer de estômago se forma
O tipo mais comum, o adenocarcinoma, costuma surgir depois de anos de agressão à mucosa gástrica. A sequência mais estudada começa com gastrite crônica, geralmente ligada à infecção por Helicobacter pylori, evolui para atrofia da mucosa, depois metaplasia intestinal (quando o revestimento do estômago passa a se parecer com o do intestino) e, em uma parcela dos casos, para displasia e câncer. Esse percurso leva décadas, o que explica por que a doença se concentra a partir da sexta década de vida e por que tratar a bactéria interrompe o processo em quem ainda está no começo dele.
Há dois comportamentos bem diferentes dentro do mesmo diagnóstico. O tipo intestinal forma uma lesão mais delimitada, é o mais associado ao H. pylori e ao consumo elevado de sal, defumados e conservados. O tipo difuso, que inclui as células em anel de sinete, infiltra a parede do estômago sem formar uma massa nítida. Na forma extrema, a linite plástica, o órgão inteiro endurece e perde a capacidade de distender. O tipo difuso aparece mais em pessoas jovens, tem menos relação com dieta e pode ter componente hereditário, como na síndrome do câncer gástrico difuso hereditário ligada ao gene CDH1, situação em que a família inteira precisa ser avaliada.
Sintomas que justificam uma endoscopia
A dificuldade clínica do câncer gástrico é que ele começa com queixas idênticas às de uma gastrite comum. O que muda a conduta não é o sintoma isolado, e sim a persistência dele e a companhia que ele traz.
- Dor ou queimação no estômago que não cede com semanas de tratamento sintomático, principalmente acima dos 40 anos.
- Perda de peso sem intenção: o dado que mais muda a urgência da investigação.
- Saciedade precoce: encher com pouca comida, algo típico de um estômago que perdeu complacência.
- Vômitos repetidos ou vômito de alimento ingerido horas antes, sugerindo obstrução da saída do estômago.
- Anemia por deficiência de ferro sem causa aparente, ou fezes escuras e com odor forte, sinal de sangramento digestivo alto.
- Dificuldade para engolir, que aponta para lesão perto da transição entre esôfago e estômago.
Nenhum desses achados confirma câncer. Todos são muito mais frequentes em doenças benignas. O ponto é que todos indicam endoscopia digestiva alta em vez de mais um ciclo de omeprazol por conta própria.
Do diagnóstico ao estadiamento
A endoscopia com biópsia é o exame que fecha o diagnóstico: vê a lesão e colhe fragmentos para a patologia. Confirmado o adenocarcinoma, a etapa seguinte é medir a extensão da doença. A tomografia de tórax, abdome e pelve com contraste procura metástases em fígado, pulmão e peritônio. A ecoendoscopia mede a profundidade da invasão na parede gástrica e avalia linfonodos próximos, informação decisiva para saber se cabe quimioterapia antes da cirurgia. Em tumores avançados, a laparoscopia de estadiamento com lavado peritoneal pode ser indicada para detectar implantes pequenos demais para a tomografia. Encontrar carcinomatose antes de uma gastrectomia grande evita uma operação que não traria benefício.
A patologia também pesquisa marcadores que orientam o tratamento medicamentoso, como a expressão de HER2, PD-L1 e a instabilidade de microssatélites. São exames feitos no material da biópsia ou da peça cirúrgica e discutidos com a oncologia clínica.
Gastrectomia subtotal ou total: o que decide
A extensão da retirada é definida pela localização do tumor e pela margem necessária, não pela preferência do paciente ou do cirurgião. Tumores do antro, na porção final do estômago, costumam permitir gastrectomia subtotal; tumores do corpo alto, do fundo ou da cárdia, e os de padrão difuso infiltrativo, geralmente exigem gastrectomia total. Em ambas as situações, a linfadenectomia D2 (retirada regrada das cadeias de linfonodos perigástricas e das que acompanham os vasos do tronco celíaco) é o padrão técnico descrito nas diretrizes internacionais e é o que permite um estadiamento confiável.
| Aspecto | Subtotal | Total |
|---|---|---|
| Indicação típica | Tumor do antro ou terço distal | Tumor do corpo alto, fundo, cárdia ou padrão difuso |
| O que sobra do estômago | Coto gástrico proximal | Nenhum |
| Reconstrução | Ligação do coto ao intestino delgado | Ligação do esôfago ao intestino delgado |
| Reposição de vitamina B12 | Pode ser necessária, conforme o coto remanescente | Obrigatória e permanente |
| Volume das refeições | Reduzido | Bem reduzido, com fracionamento maior |
| Linfadenectomia | D2 nos dois casos, quando há intenção curativa | |
Quimioterapia antes e depois da operação
Em tumores que ultrapassam a camada submucosa ou que já comprometem linfonodos, o tratamento não é só cirúrgico. O esquema perioperatório adotado com mais frequência hoje aplica ciclos de quimioterapia antes da gastrectomia e outros depois, estratégia que em estudos randomizados mostrou vantagem sobre a cirurgia isolada nesses estádios. A parte pré-operatória tem uma função prática além do efeito sobre o tumor: quem não tolera o tratamento antes da cirurgia dificilmente o toleraria depois, quando o paciente está em recuperação. Já em lesões restritas à mucosa, selecionadas por critérios rígidos, o tratamento pode ser apenas endoscópico, por ressecção submucosa, sem gastrectomia. A escolha entre esses caminhos é individual e depende do estadiamento completo.
Quando a gastrectomia não é indicada
Retirar o estômago de quem tem doença disseminada não aumenta a sobrevida e consome semanas de recuperação que fariam falta para o tratamento sistêmico. Metástases hepáticas múltiplas, carcinomatose peritoneal, comprometimento de linfonodos à distância e invasão de estruturas vasculares maiores são situações em que a cirurgia com intenção curativa deixa de fazer sentido. Nesses casos, o tratamento passa a ser a quimioterapia associada, quando indicada, a terapias-alvo ou imunoterapia conforme os marcadores do tumor.
Uma operação ainda pode ser necessária por outro motivo: obstrução da saída do estômago que impede a alimentação, ou sangramento que não se controla por endoscopia. Aí o objetivo declarado é aliviar o problema, e o procedimento tende a ser menor (uma derivação ou uma via de alimentação) e não a ressecção completa.
A vida depois da cirurgia
A adaptação alimentar é a parte mais longa da recuperação e começa ainda na internação, com dieta líquida evoluindo por etapas. Em casa, o padrão que funciona é comer pouco e várias vezes ao dia, mastigar bem, separar líquido de sólido em cerca de meia hora e priorizar proteína em cada refeição. Perder peso nos primeiros meses é esperado e não significa que algo deu errado; perder de forma contínua depois desse período é motivo para reavaliação.
A reposição de micronutrientes vira rotina permanente após a gastrectomia total, com vitamina B12, ferro, cálcio e vitamina D acompanhados por exames periódicos. A síndrome de dumping aparece em parte dos pacientes e responde a ajustes na dieta. O seguimento oncológico combina consultas, exames de sangue e imagem em intervalos definidos pelo estadiamento final, mais concentrados nos primeiros dois anos, quando a chance de recidiva é maior. Acompanhamento nutricional não é acessório nesse processo: ele sustenta a tolerância ao tratamento complementar.
Consulta em São Paulo
A avaliação de um caso de câncer gástrico rende mais quando o laudo da endoscopia, o material da biópsia e as imagens em mídia chegam juntos: com esse conjunto dá para conferir o estadiamento sem repetir exames. O atendimento acontece na Av. Paulista, 1048, 18º andar, em Cerqueira César, região central de São Paulo. Não há unidade em bairro da zona sul. Quem mora em Moema, Campo Belo, Vila Mariana, Brooklin ou Itaim Bibi chega pela Linha 2-Verde do metrô ou pelas avenidas 23 de Maio e Brigadeiro Luís Antônio, em geral entre 15 e 45 minutos fora dos horários de pico. Contexto geral das operações do trato digestivo em cirurgia oncológica do aparelho digestivo.
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Perguntas frequentes
- Tenho H. pylori. Vou ter câncer de estômago?
- Não. A infecção por H. pylori é comum e a maioria das pessoas infectadas nunca desenvolve câncer gástrico. O que se sabe é que a infecção crônica não tratada é o principal fator de risco modificável, porque mantém uma inflamação que pode evoluir para gastrite atrófica e metaplasia intestinal ao longo de anos. Tratar a bactéria quando ela é identificada e confirmar a erradicação depois é a conduta que reduz esse risco.
- Dá para viver sem estômago?
- Sim, com adaptações permanentes. Depois da gastrectomia total, o esôfago é ligado diretamente ao intestino delgado e a alimentação passa a ser fracionada, em porções pequenas e mais vezes ao dia. A vitamina B12 precisa ser reposta por via injetável ou em dose alta oral, porque o fator intrínseco produzido pelo estômago deixa de existir, e é comum haver necessidade de ferro, cálcio e vitamina D. Perda de peso nos primeiros meses é esperada e o acompanhamento nutricional faz parte do tratamento.
- A cirurgia pode ser feita por laparoscopia ou robô?
- Pode, em casos selecionados. A gastrectomia minimamente invasiva com linfadenectomia D2 é realizada por equipes com treinamento específico e exige que a qualidade da linfadenectomia e da margem seja igual à da via aberta. Esse é o critério que decide, não a via de acesso. Tumores volumosos, com invasão de estruturas vizinhas ou em pacientes com múltiplas cirurgias abdominais prévias podem ser mais bem conduzidos por via aberta.
- O que é a síndrome de dumping?
- É um conjunto de sintomas que aparece quando o alimento chega rápido demais ao intestino delgado, algo frequente depois de operações do estômago. Na forma precoce, surgem cólica, distensão, náusea, palpitação e sudorese pouco depois da refeição; na tardia, há hipoglicemia com tremor e fraqueza uma a três horas depois. Costuma melhorar com refeições menores, redução de açúcares simples, separação entre líquidos e sólidos e orientação nutricional.
- Quem deve fazer endoscopia de rastreamento?
- O Brasil não tem programa de rastreamento populacional por endoscopia como o Japão e a Coreia do Sul, onde a incidência é muito maior. A endoscopia é indicada de forma individualizada: sintomas dispépticos persistentes, principalmente acima dos 40 anos, anemia por deficiência de ferro sem causa esclarecida, história familiar de câncer gástrico, gastrite atrófica, metaplasia intestinal ou cirurgia gástrica prévia. Essa decisão deve ser tomada em consulta.
Fontes
- INCA - Instituto Nacional de Câncer: Câncer de estômago: fatores de risco, diagnóstico e tratamento
- National Cancer Institute (NIH): Stomach (Gastric) Cancer - Patient Version
- IARC / OMS: Global Cancer Observatory - dados de incidência de câncer de estômago
Conteúdo informativo revisado por médico; não substitui a consulta nem a avaliação individualizada. Em caso de dor abdominal intensa, febre, vômitos persistentes ou sangramento, procure atendimento de urgência.
Revisado por Dr. Gustavo Henklain Duarte, CRM 168708-SP | RQE 120070 e RQE 105657. Última revisão em 31 de julho de 2026.